quarta-feira, 28 de julho de 2010

Se é assim que tem que ser...

Era um dia de cão. Não se sentia bem, não se animava pra nada. Havia começado tudo errado. O “bom dia” já não lhe agradara, porque de fato, de bom nada poderia haver após dormir naquela situação e acordar em outra parecida, quase idêntica.

Não era a primeira vez, não ia ser a última que passava por aquilo e o que mais lhe dava raiva era não se fazer entender. Não conseguir entender como as coisas mudavam da água para o vinho, principalmente para os outros. Ao invés de ligar o foda-se, resolveu compreender. Antes tivesse mandado tudo às favas. Seria menos doloroso, doeria menos na alma.



Conceitos, pudores, frescuras, bobagens e desculpas esfarradas. Eram demais para sua cabeça sagitariana, de certa forma livre de neuras e conservadorismo absurdos. O pior era ler as entrelinhas infundadas e sem provas. Linhas, entrelinhas, malditas formas geométricas. Tornavam-se curvas e embolavam-se nos pensamentos, deixando-os mais entre perdidos do que achados. Era de fato a seção errada.

Talvez tudo tivesse já começado errado em sua origem. Era inconcebível frear uma intimidade conquistada. Em seu mundo – nada fantástico, a seu ver – não era possível que uma liberdade permitida, gozada (diversas vezes e euforicamente), fosse agora jogada pela janela e tivesse que se contentar com apenas um não. Não! Não aceitava.

Mas tudo seria e será de acordo com o que convém. Como fez questão de deixar claro, infinitas e exaustivas vezes, seria como fosse da vontade alheia e não da sua. Não mais seria o mesmo, infelizmente. Não mais brincaria, não mais faria piadas. Que vivesse o mundo da forma como quisesse. Gostava de coisas palpáveis e seu mundo desse jeito iria funcionar. Seu foco agora seria no Eu.

Uma lágrima correu em seu rosto, lembro-o de que era humano. Apertou o x e fechou a janela como parte de um primeiro adeus.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Era o que faltava

do Google

O que mais ouvia das pessoas era “Não vejo a hora que o ano termine!”. Parecia que realmente 2009 não estava sendo muito bom. E não era só pra si. Quer dizer, a princípio o ano não tinha sido de todo mal. Mas de uns tempos para cá parece que o mundo tinha se voltado completamente a ser do contra.

Era impressionando como as coisas aconteciam para os outros e não para ele. Pensou em se benzer. Benzeu-se. Uma, duas, oito, dez vezes. Em rituais diferentes, lugares diferentes. Parecia de nada adiantar. Começou a achar que era inveja ou então macumba da brava. Deviam ter botado seu nome na boca do sapo. Pobre do sapo!

Sentia-se desanimado, descrente... Vai gente dando certo sem esforço nenhum. Indignava-se por dentro, mas faria o que? Não havia com quem reclamar... Reclamava em pensamento, talvez imaginando que um deus pudesse ouvi-los esbravejar e se compadecer... Achou que deus era surdo. Ou quem sabe era ele que teimava em não ouvir ao deus...

Dentro de si, sentia um desejo de mudança, de voltar ao que havia abandonado. A história do arrepender-se apenas daquilo que não fez. E havia deixado de fazer. Havia mudado de idéia no meio caminho, por força das circunstâncias e todas as desculpas mais. E agora, por que o medo de recomeçar de novo?

O mundo custava caro. Quando as coisas pareciam melhorar, não era por muito tempo. Não durou nem uma semana, dez dias... No dia do aniversário, achando que tinha chegado ao fim do inferno astral, uma bomba cai na sua vida. Enfim, tudo se resolve, mas nem sempre a solução é a ideal. Não deixara a explosão estragar muita coisa, mas mesmo assim, o buraco aberto no bolso era grande.

Saiu para beber com os amigos. Divertiu-se. Riu, falou besteiras, sentiu-se melhor. Tinha muitas coisas a dizer, muitas a pensar, poucas respostas. Na verdade, tinha até algumas conclusões, mas faltava-lhe coragem talvez de admitir, meter a cara e começar de novo. A palavra era exatamente essa. Coragem. Sempre mostrou-se forte, com vontade, mas dessa vez falta-lhe exatamente isso. Coragem de dizer que não queria mais aquilo e que, desse certo ou não a nova empreitada, era o que queria e iria ser feliz.

Fazia planos de Europa em 2011 ao mesmo tempo em que fazia planos para mudar de vida em 2010. Faltava resolver mil coisas. Faltava um emprego fixo com bom salário, faltava um custo de vida mais baixo também, impossível no momento. Faltava mandar tudo pelos ares e dizer tchau. Faltava fazer mais planos que o sagitarianismo impedia. Na verdade, faltava era ser mais sagitarianos com ascendente em gêmeos.

Que assim o seja em 2010.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Porque a vida é teatro também

Ato I

Tinha acabado de chegar ao local. Iria pegar a primeira cerveja da noite. No caminho até o bar os olhares se cruzaram pela primeira vez. Mas o outro olhar pareceu acompanhado E estava. Focou-se então na cerveja.

Mas os olhos continuavam cruzando-se. No caminho, para lá e para cá, um esbarrão, de novo o olho no olho. Esqueceu-se de que quem lhe interessava tinha companhia. A correspondência dos olhos era fato e inevitável.

Comentou com o amigo, que concordou sobre o que o outro também via. Era de interesse dos olhares que se cruzavam. E depois de um tempo ficou mais claro.

Divertia-se com os amigos, até meio alheio ao que acontecia ao redor, notou novamente a passagem daqueles dois olhos que lhe encaravam e que junto com o resto do corpo acabaram sentando-se praticamente ao seu lado. Começou o flerte, depois de um gole na cerveja, com um leve toque em seu braço, acariciando de leve sobre a camiseta vermelha de manga comprida.

O braço não se afastou. Era um sinal mais evidente. Mas ainda não tinha coragem de conversar. Não sabia o que dizer, o que perguntar, onde colocar a mão. Continuou a acariciar e agora não só os olhos faziam parte do flerte. Além das mãos, havia um sorriso. Sorriso malicioso, convidativo, mas ainda não tinha coragem de falar.

Os olhos cansaram-se de esperar. O sorriso levou-se e saiu em direção aos amigos e a camiseta vermelha era vista pelas costas, indo, não muito longe dali. Achou que teria perdido a chance. Pensou e reprimiu-se por dentro pedindo a si mesmo que depois não reclamasse que a vida lhe era injusta. Esta ali, ao seu lado e nada vez. Amaldiçoou pela centa vez sua timidez.

Numa nova cerveja, a amiga, que conhecia há apenas dois dias, falou-lhe algo que lhe deu ânimo. Fez-lhe sentir-se bem. "Ouvi dizer que você se acha feio. Pode parar com isso. Você é muito bonito e, não, isso não é um xaveco". Aquilo tocou-lhe, talvez ela nem tenha percebido como e de que maneira, mas era o impulso mais preciso de que ele precisava. Pensamentos para que a vida lhe desse uma nova chance sobrevoavam sua cabeça. E a vida, generosa, deu.

Meio que por mágica, voltou pra perto e sentou-se em outra cadeira, bem de frente. Novos olhares e sorrisos maliciosos. Uma certa incomodação pela demora, um passo à frente, um gole na cerveja, um olhar, um sorriso, mais um passo e um trident. Do outro bolso surge um halls.

***
- Oi! Acho que cansei de só te olhar. Uma hora alguém precisava vir conversar né?
Risos dos dois lados.
- Puxa a cadeira, senta ai. Tudo bom?
- Tudo bem e com você?
- Tudo certinho também.
[apresentações nominais]
- Você é de onde?
- São Paulo, mas minha família é daqui e vc?
- Daqui mesmo. Que você faz?
- Sou jornalista freelancer e vc?
- Eu trabalho. Sou da área societária de uma empresa aqui. Vou a São Paulo pelo menos uma vez por mês.
- Que legal. Gosta de lá?
- Até gosto, mas já fui assaltado duas vezes. Roubaram meu celular. Quer dizer, na primeira roubaram, na segunda eu fugi. Mas acabei tropeçando enquanto corria e passei o dia seguinte todo ralado e com dores. Mas pelo menos fiquei com o cel. Hehehe. Quantos anos você tem?
- Chuta. Vamos ver se acerta.
- Ah, se você já é formado e trabalha, você tem mais de 22. Vou te dar 23 anos.
- Quase. 24. 25 em novembro. E você quantos tem?
- Adivinhe também então.
- Ah, eu acho que você tem cara de ter uns 22. Deve ser mais jovem que eu.
- Ahauhauahuahauahu, quem me dera. Tenho 28.
- Nossa não parece mesmo.
- Peraí. Vou ali avisar meu amigo que estou aqui com você.

***
[algumas zoeiras e muitas risadas dos amigos dizendo-lhe que havia levado um bolo e que ia ficar ali esperando realmente sentado, eis que surge, em meio ao povo, o olhar e o sorriso de volta]
- Oi, voltei. Seus amigos parecem ter achado graça...
- É, eles são engraçadinhos mesmo. Vieram me encher o saco, pra variar.
Beijo. Gostoso, encaixado.
Risos ao fundo. Os mesmos amigos. Não perceberam onde estava a graça. Abstraíram.
Beijo.
- Que pena que você não mora aqui.
- Mas você vai todo mês pra Sampa. Já é algo bom. Risos dos dois lados.
- Vai ver alguma peça amanhã?
- Vou mas não sei o nome. Meu amigo foi quem comprou. Mas é às nove e meia.
- A minha também. Quem sabe não é a mesma, né?
- Quem sabe. Tá ficando onde aqui?
- Tô na casa de um desses amigos bestas aqui atrás.

***
Beijos
***

[os amigos que acham graça querem ir embora]
- Bom, preciso ir que estou de carona.
- Meus amigos também querem ir em breve. Já me fizeram sinal.
- Então de repente a gente se vê na peça amanhã. Me dá seu telefone?
- Claro, anota ai e dá um toque no meu que já fico com o seu também.
[troca de números feita]
- Então tchau.
- Me liga amanhã à tarde, tá?!
- Podexá. Ligo sim.

***
Beijos


Fim do Primeiro Ato.